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O AMOR QUE DÁ CORAGEM

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Coragem! Os antigos julgavam que esse ímpeto que nos faz enfrentar adversidades vinha do coração. Daí a palavra “coragem”; “cor” de coração e “aticum” que se refere a ação. E se vem do coração é bem provável que seja parente do amor, isso se tomamos a máxima bíblica “o amor lança fora o medo”.

O medo vem de um instinto de preservação. Já o amor consiste em um movimento de saída de si, um doar-se. Medo e amor conflitam, mas não se excluem necessariamente. Talvez a coragem seja esse impulso de sair de si, de arriscar-se, apesar do medo.  Aliás, a gente se arrisca geralmente por aquilo que ama ou pelo que dá sentido a vida. Mais uma vez, tomando o ensinamento bíblico como referência, podemos assumir que “onde está nosso tesouro aí está o nosso coração”. Então, se assim for, o que dá sentido a nossa vida é o que realmente amamos e pelo que vivemos.

Talvez soe clichê, mas precisamos confessar que, talvez, não seja necessário coragem para amar. Ao contrário, é preciso amar para se ter coragem. Só nos arriscamos por aquilo que julgamos importante, por aquilo que estamos dispostos a dar a vida. É algo um tanto paradoxal, haja vista que perdendo a vida, não temos como amar, já que não existiremos. Contudo, perder a quem se direciona o amor também não seria amar. Por isso soa estranho arriscar-se por amor, estar disposto a esvaziar-se por um bem-querer.

Só tem condição de sair de si autenticamente aquele que estiver inteiro em seu afeto e ao mesmo tempo livre em relação a ele. Não se trata de uma despersonalização que leva a pessoa a se anular em função de um outro. Isso não é amor, é dependência. Só posso me dar ao outro se eu for alguém e não uma mera extensão sua. Justamente por ser tão eu mesmo é que tenho condições de me decidir pelo outro.

Os supostos amores que tanto vemos no nosso cotidiano são amores covardes. Isso porque não são inteiros, não há decisões de um pelo outro para a construção de um projeto comum. Há casais que mais se parecem com mendigos pedindo esmola um ao outro. A soma de carências leva a exploração da fragilidade alheia, gerando um círculo vicioso de dependência e deterioração mútua. Há relações que deixam os envolvidos doentes.

Amor de coragem sabe dizer não porque não precisa ser provado fazendo sempre a vontade do outro. Amor de coragem sabe criar espaço para que o outro possa descansar porque sabe que a própria presença não é um absoluto. Amor de coragem sabe abrir mão de coisas importantes em função de quem se ama quando é preciso. Amor de coragem se pensa cotidianamente, sem medo de se rever, porque sabe que precisa ser atualizado e reafirmado a cada dia. Amor de coragem é coisa de adulto, de quem sabe ser sozinho e por isso está pronto para se dar ao outro.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE.
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