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QUANDO VEM A TORMENTA

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Resiliência é um conceito da física e da biologia que foi apropriado por alguns segmentos da psicologia e outras áreas. Recentemente esteve na moda, principalmente na Vida Religiosa Consagrada e, por ser tanto repetido, algumas pessoas acabaram tendo certa implicância com o termo. Apesar disso, seja da antipatia ou da impressão de algo complicado, trata-se de um conceito urgente e necessário nos tempos difíceis que vivemos.

Em linhas gerais, trata-se da capacidade de alguns materiais de acumular energia e se recomporem após determinado estresse. É o que acontece com uma vara de metal ou mesmo uma mola que, mesmo depois de envergada ou pressionada, voltam ao estado original. O mesmo se passa na biologia, quando algumas vegetações se recompõem após serem agredidas, por exemplo. Consiste em algo diferente de resistência. Matas de cerrado têm baixa resistência e pegam fogo muito facilmente. Contudo, recompõem-se de modo também rápido. Em contrapartida, algumas florestas tem alta resistência ao fogo mas, quando incendiadas, jamais se recuperam por não serem resilientes.

Por extensão, tal conceito foi tomado pela psicologia para dizer da capacidade de alguém se recompor de situações estressantes, de conservar energia psíquica na adversidade sem se “desmontar”. De fato, há momentos em que as pressões que sofremos parecem nos conduzir ao surto. Há quem resista fortemente mas, após o estresse vivido, nunca mais se reestabelecem. É o que acontece com alguns sobreviventes de guerras e conflitos armados, que carregam para sempre as sequelas do trauma vivido.

Não é fácil se recompor ante a adversidade. A experiência da morte de um ente querido impõe sempre um desafio para quem tinha o sentido da vida atrelado à relação que nutria. O mesmo ocorre com relacionamentos afetivos que se rompem. Algumas vivências culminam numa experiência de desagregação da estrutura pessoal. Geralmente perdas ou fatos agressivos dão essa sensação de desarranjo, porque, de fato, implicam em certa ruptura ou rompimento de harmonia. Uma dívida pode fazer com que alguém se sinta menos capaz, menos honrado, com vergonha de si ante a sociedade, provocando uma cisão naquilo que ela esperava de si e na realidade que tem.

A verdade é que intuimos em nós nossas capacidades, talentos, potencialidades; tudo aquilo que podemos ser em plenitude. Contudo, como habitamos no tempo e espaço, na realidade finita, não ideal, deparamo-nos com nossos limites e faltas e, consequentemente, com o que não somos. O desespero de realizar a si mesmo e não conseguir leva constantemente a buscar algo que nos conforte e nos justifique. Apegamo-nos à carreira, ao status social, à aparência, mesmo ao afeto dos amigos e familiares. Entretanto, quando estes falham, o mundo que sobre isso se alicerçava cai. Um homem que constroi a casa sobre a areia fica sem moradia quando vem a tempestade.

Alguns apresentam grande resistência e tentam proteger o castelo de cartas que construíram para morar. Daí é que se vê a intolerância diante do diferente. Não podem suportar algo que abale suas certezas. Homens que sufocaram sua homoafetividade podem se tornar homofóbicos por medo do próprio sentimento. Líderes religiosos podem se tornar fundamentalistas para não se depararem com sua própria falta de fé. Querem defender Deus porque não creem que Ele se basta e não precisa de defesa. A resistência frequentemente é inversamente proporcional à resiliência.

Pessoas resilientes não têm medo de serem questionadas; ao contrário, aceitam a crítica. Elas assumem a dor e a tragédia da existência. Nessas situações, quando tudo parece soçobrar, tais pessoas conservam certa dose de energia e vitalidade que lhes permite reeguer-se. Isso porque o fundamento da própria vida não está naquilo que se faz ou que se tem, naquilo que se pode perder. Paradoxalmente, encontram vida nas situações de morte, beleza naquilo que é feio, luz nos cenários de trevas; de todo mal tiram um bem.

A questão que se impõe é onde está essa fonte e fortaleza. Uns dirão que é Deus, outros que é o próprio ser, outros ainda que é o amor. Diversas religiões, filosofias e caminhos foram apontados ao longo da história da humanidade e não cabe aqui dizer qual caminho cada um deve trilhar. Como diz o poeta, “caminheiro, não existe caminho, faz-se caminho”. Importa, pois, atentar para o fato que vivemos tempos difíceis, de incertezas no cenário político-econômico, bem como das relações, ditas, líquidas. Entretanto, a adversidade externa só se torna um perigo quando o fundamento da própria vida é quebradiço. Temos visto pessoas demasiado frágeis, sem nem resistência nem resiliência para enfrentar a vida.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE.