Formação

SOFRER MAS NÃO SUCUMBIR

Deixe seu comentário
«À noite, quando o dia cai atrás de nós, costumo caminhar ao longo do arame farpado, e do meu coração levanta-se sempre uma voz que diz: “A vida é uma coisa esplêndida e grande. A cada novo crime ou horror, devemos opor um novo pequeno suplemento de amor e de bondade, conquistados em nós mesmos. Podemos sofrer mas não devemos sucumbir» (Etty Hillesum).
Comove-me imaginar a cena de uma jovem mulher que num campo de concentração nazi anda à noite ao longo do arame farpado da reclusão e, diante do horror que a rodeia, consegue pronunciar estas palavras de vida e de esperança.
Este escrito foi recolhido no “Diário 1941-1943”, tendo a data de 3 de julho de 1943. Poucos meses depois, a 30 de novembro, esta extraordinária mulher judaica, dotada de uma inteligência e de uma têmpera humana e mística única, será eliminada em Auschwitz, onde toda a sua família já tinha sido morta.
«Podemos sofrer mas não devemos sucumbir.» Estas palavras deveriam ser como um moto no dia sombrio da provação. A vida é sempre uma realidade grandiosa que pode conter também a dor mais atroz.
A nossa capacidade de amor é tal que pode opor-se à onda crescente do mal e do ódio. A nossa alma tem em si uma energia que lhe permite lutar e reagir a cada tempestade e deixar uma semente de luz no terreno árido e pedregoso da história.
Deveríamos recolher mais vezes o apelo de Etty, sobretudo quando ao primeiro obstáculo deixamos cair os braços e à primeira provação escolhemos o caminho mais fácil do sucumbir ou da fuga. Não é uma questão de audácia ou de heroísmo; é apenas uma escolha de dignidade e de esperança.
Como advertia já no séc. XVI Baldesar Castiglione, no seu “Livro del cortegiano” (1528), «é muitas vezes nas pequenas coisas, mais do que nas grandes, que se conhecem os corajosos».
Cardeal Gianfranco Ravasi 
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 09.11.2015 no SNPC