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TERAPIA DA SOCIEDADE

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pessoas-andandoNão sei se já existe um termo para falar de terapia aplicada a uma sociedade como sociedade. “Socioterapia” é outra coisa, segundo o dicionário Houaiss. Decerto, o importante não é o nome, mas o nome ajuda para vender a ideia. Mas, por que falo nisso? Porque todo o mundo diz que a sociedade brasileira está doente. Não só a brasileira. Meus amigos na Europa dizem a mesma coisa de seus respectivos países. Isto, porém, não pode ser uma desculpa para não tratar do mal do Brasil. E não precisamos apenas tratar do mal do Brasil, mas devemos tratar o mal, inventar e aplicar uma terapia.

Pode-se perguntar se a sociedade está doente porque as pessoas não prestam (então se põe a culpa nos degredados que iniciaram a colonização – enquanto, sem o dizer, se pensa nas populações “indolentes” que estavam aí ou foram trazidas para cá). Ou será o inverso: as pessoas estão “disfuncionais” porque a sociedade é mal estruturada (então a culpa seria “dos políticos”)? Tal pergunta é como aquela do ovo e da galinha… “É dialético”, dizíamos quando não conseguíamos ver uma clara sequência de causa e efeito.

Ora, olhando o que vi e ouvi nos últimos cinquenta anos, mais pelo lado esquerdo, onde geralmente me movimento, é uma falta de atenção pelo fator pessoal. O problema é colocado na conta da sociedade ou das coletividades que nela interagem. Creio que se deve levar mais em consideração a dialética de indivíduo e sociedade. Só se forma uma sociedade sã com indivíduos sãos, mas a sanidade destes depende do bom estado da sociedade. Todas essas pessoas que o Lava-Jato empurra para a sarjeta da corrupção não são tão ruins assim, e eu não gostaria de causar um entupimento na entrada do inferno mandando todos eles para lá. Mas todos participam de uma cultura que é péssima. E para mudar essa cultura é preciso que as pessoas, uma por uma, mudem seu comportamento.

Devemos apostar mais no fator pessoal, e isso se chama: pedagogia. Ou antropogogia, para que não se pense que se trata só das crianças (mas também delas). Porém, se há uma disfunção psicocultural, como é o caso do Brasil e das outras sociedades acima apontadas, essa antropogogia deve ser precedida de um tratamento ântropo-socioterapêutico… Colocar o país no divã, para que fale a verdade e torne conscientes e assumidos seus complexos e ilusões alienantes. O bom da psicanálise é que leva à consciência que o problema não está nos outros (a famosa arte da racionalização), mas em nós mesmos. E isso, não por alguma culpa moral, mas por fatores que até agora escaparam a nossa consciência e, portanto, não estavam sujeitos a juízo moral, mas nem por isso dispensem tratamento…

Algumas dessas ilusões já estão sendo faladas. Já tem estudos que mostram que o Brasil é mais racista que os Estados Unidos (!), mas de uma maneira mais latina, ou ladina… Não se separam os negros, são integrados, “cordialmente”, como gente de segunda categoria. “Neguinhos”. E que dizer do machismo?

Um bom início de “sociopsicanálise” para o Brasil foi dado, já antes de Freud, por Machado de Assis. Nelson Rodrigues o seguiu pondo a descoberto o “complexo de vira-lata”. Para ampliar o tratamento podem-se tirar da estante os estudos de Paulo Freire ou, até, “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freire, embora este possa favorecer a típica racionalização socialista que consiste em acusar as estruturas.

Ora, agora chega de brincadeira. A situação é grave. Deus já não é brasileiro, e o Brasil também já não é tão grande quanto sugere o ditado tradicional. Se o povo como um todo e cada um por si não assumirem lucidamente seus limites e também suas reais capacidades, dispondo-se a um estilo de vida ético e responsável, fazendo escolhas políticas responsáveis, tanto no que tange aos candidatos quanto aos programas, veremos em breve aparecer aqueles que pretendem resolver tudo na base da força bruta, e ainda invocando o nome de Deus! Já estão aí.

 

Pe. Johan Konings, SJ
Professor de Exegese Bíblica na FAJE